O que aconteceu hoje
No segundo dia do Fórum Anual do Banco Central Europeu (BCE), realizado em Sintra, Portugal, a presidente Christine Lagarde proferiu hoje um discurso que define uma virada estratégica para a política monetária europeia: o fim formal de uma década de instrumentos não convencionais — compras de ativos (QE), empréstimos de emergência e forward guidance — e o retorno ao modelo tradicional, centrado exclusivamente na taxa de juro como instrumento de controle inflacionário.
"A política monetária voltou ao básico", afirmou Lagarde. O BCE elevou sua taxa principal em 25 pontos-base em 11 de junho, de 2,00% para 2,25%, e Lagarde rejeitou interpretações de que se tratou de uma "subida de precaução": os dados apontavam para "um problema de inflação real", com a inflação na zona do euro prevista para retornar à meta de 2% apenas no final de 2027. O fórum também expôs divisões internas no Conselho do BCE sobre a necessidade de novos aumentos.
Como chegamos aqui
Após a crise de 2008 e especialmente após a pandemia de 2020, os grandes bancos centrais ocidentais adotaram um arsenal heterodoxo: compras massivas de títulos, taxas próximas de zero e orientações explícitas sobre os próximos passos. Esse ciclo foi revertido com as pressões inflacionárias de 2022–2023, mas o BCE manteve por mais tempo medidas de apoio ao crédito europeu — até o ajuste de junho sinalizar o encerramento dessa era.
Em paralelo, nos EUA, o Federal Reserve realizou em 16–17 de junho a primeira reunião do FOMC sob a liderança de Kevin Warsh — novo presidente nomeado por Donald Trump em substituição a Jerome Powell. O Fed manteve os juros em 3,50%–3,75%, mas Warsh adotou postura significativamente mais restritiva: removeu qualquer indicação de cortes futuros, suprimiu o forward guidance e revisou a projeção de inflação PCE para 3,3% em 2026. Nove dos 18 membros do FOMC projetam pelo menos mais uma alta de juros este ano.
O pano de fundo geopolítico que propiciou algum alívio inflacionário foi o acordo preliminar EUA–Irã firmado no início de junho, que reabriu o Estreito de Ormuz (fechado durante o conflito que elevou o Brent a US$ 140/barril) e derrubou o petróleo para a faixa de US$ 74/barril. Ainda assim, ambos os bancos centrais mantêm cautela: a durabilidade do acordo é incerta, e a inflação subjacente permanece acima das metas.