Copom corta a Selic, mas o tom preocupa mais que o número
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica de juros para 14,25% ao ano — o terceiro corte consecutivo do ciclo. A decisão já era esperada pelo mercado, mas o comunicado divulgado junto com a decisão surpreendeu pelo tom mais cauteloso: o Banco Central elevou a projeção de inflação para 2026 de 4,86% para 5,30%, citando riscos ligados a tensões geopolíticas no Oriente Médio e seus efeitos sobre o preço de commodities e combustíveis.
O Copom não sinalizou pausa no ciclo de afrouxamento monetário, mas reforçou que "os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual" — uma forma de manter a porta aberta para qualquer cenário nas próximas reuniões. Bancos como o BofA já revisaram suas projeções e apostam que este foi o último corte de 2026, com uma pausa que pode se estender até metade de 2027.
Por que isso afeta o Brasil?
A Selic é a principal ferramenta de combate à inflação e também o termômetro que define o quão atrativo o Brasil é para o capital estrangeiro. Com a taxa ainda em 14,25% ao ano — um dos maiores juros reais do mundo — o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos continua elevado, o que ajuda a sustentar o fluxo de dólares para títulos públicos brasileiros e contém pressões mais fortes sobre o câmbio.
Por outro lado, a revisão da inflação para cima mostra que o espaço para novos cortes é mais estreito do que se imaginava há poucos meses. Isso tende a manter o custo do crédito elevado por mais tempo, afetando empresas endividadas e o consumo das famílias.
Selic, câmbio e bolsa
Na reação do mercado, o Ibovespa fechou o pregão de 19 de junho com alta discreta de 0,03%, em 168.333,61 pontos, em sessão de baixa liquidez por conta do feriado em Wall Street. No acumulado do mês, o índice ainda registra queda de 3,14%, mas soma alta de 4,47% em 2026.
Já o dólar comercial recuou para R$ 5,165, interrompendo uma sequência de quatro altas seguidas, em linha com a manutenção do diferencial de juros favorável ao real. Na semana, porém, a moeda americana ainda acumula alta de 2,04%, refletindo a cautela dos investidores diante do comunicado mais duro do Copom e do cenário geopolítico internacional.